A Literatura Moderna não é nada além de uma Salada de Palavras Anti-Intelectual

A Literatura Moderna não é nada além de uma Salada de Palavras Anti-Intelectual

This is a translation of my article, “Modern Literature is Nothing More than Anti-Intellectual Word Salad” translated to Portuguese by writer, José Geraldo Gouvea

Esta semana dois autores de meu círculo estavam preocupados com a mesma questão: Por que a literatura moderna é tão ruim? Pelo que eu sei, esses dois autores não se conhecem. Eles estão em círculos políticos parecidos (direitistas, conservadores) mas em diferentes círculos criativos, o que fez a coincidência de seu interesse comum ainda mais fascinante.

Uma questão semelhante tem também estado em minha mente: “Por que parece que não tem surgido nada de novo ou excitante publicado recentemente?” ou, mais no ponto, “Por que os livros ficaram tão chatos?

Há algumas semanas eu fui à cidade de Nova Iorque para promover a minha ficção. Encontrei três editores e dois agentes e todos me disseram a mesma coisa: diga-me com que outros livros o seu livro se parece.

Ninguém queria nada novo. Todos queriam algo seguro. E todos eles queriam, principalmente, trabalhar com um escritor que já tivesse uma certa medida de aprovação nas redes sociais, publicado histórias em revistas etc. Claro que tudo se resumia a dinheiro, mas também ao que seria seguro. O que fizeram com a criatividade? O que aconteceu com o risco criativo? O que houve com a arte?

Notei, também, que todos que eu encontrei eram mulheres jovens que tinham um interesse expresso em livros sobre mulheres e com um tema feminista. Talvez eu tenha mirado na turma errada. Certamente há editores à direita que estão contando histórias diferentes. Certamente há editores e autores lá fora correndo riscos criativos. Mas onde estão?

Em 22 de julho, Leslie Loftis publicou “A Falha da Narrativa” (The Storytelling Gap) no Arc.

No artigo, Loftis não pergunta somente “Por que há tão poucos bons narradores na direita?” mas, também, “Por que as histórias de esquerda são tão ruins?”¹

Loftis conclui que as narrativas progressistas e pós-modernas que predominam em Hollywood e nos livros populares de hoje sofrem de duas limitações: elas não sabem como contar uma boa história, e quando contam uma, essas histórias elaboram sua própria moral.

“No passado eu teria posto a culpa em Hollywood e nos editores progressistas de esquerda. Eles esqueceram como contar histórias. Formados no relativismo, eles não entendem arquétipos, personagens ou histórias e pensam que todos podem ser dobrados para satisfazer a qualquer moralidade que esteja em voga.”²

Ela continua:

“Já me cansei de me sentar em um cinema, pagando pelo privilégio de uma palestra de duas horas. Certamente eu não quero perder meu tempo lendouma.”

Embora a direita não compartilhe do desdém esquerdista pelas estruturas narrativas, ela claramente compartilha do tom encorajador e prescritivo. Exceto que, enquanto as histórias da esquerda progressiva empurram sua própria agenda, a direita parece empurrar historinhas felizes com ‘felizes para sempre’ em um mundo descrito ‘do jeito que devia ser’, em vez de como é.

“Histórias prescritivas — aquelas que mostram o mundo como ele deveria ser — rapidamente se tornam entendiantes. Seja um satisfatório conto com a marca da direita ou um daqueles progressistas e desafiadores — pense em livros como Ash, que tem uma Cinderela lésbica — a ficção moderna está cheia de moralidades não tão bem disfarçadas.”

Coincidentemente, outro autor que signo, Vox Day, abordou os mesmos problemas e chegou a conclusões bem parecidas. Ele concluiu que a escrita da esquerda reflete a má qualidade avassaladora da literatura pós moderna. O que Loftis viu como um moralismo forçado, Vox Day descreveu como “desencorajadora”.

A Literatura Pós Moderna é uma Escrita Ruim

Não sou do tipo de leitor que só gosta de ler obras profundas e intelectuais que me fazem bem. Às vezes eu gosto de ler livros leves que me fazem rir ou me oferecem um escapismo frívolo.

Adorei ler “Segredos Divinos da Irmandade de Yaya” (Divine Secrets of the Yaya Sisterhood), de Rebecca Wells, pelas risadas e anedotas. Também sou fã de Delicious Tacos por seu humor seco e o vislumbre que sua escrita nos oferece do lado mais escuro da luxúria, do erotismo, do vício e da monotonia.

Mas não é que o assunto da maior parte da literatura moderna seja ruim, é mesmo a qualidade do texto propriamente dita. Às vezes é bem difícil até mesmo entender o que o autor está tentando dizer.

“A literatura pós-moderna é literalmente uma salada de palavras. Não é boa. Não é profunda. É infantil, é superficial e é feita para uma leve passada de olhos que lhe faz sentir algo. É literalmente anti-intelectual. Você tem que desligar o seu cérebro para tentar entender.” — Vox Day.

Em A Literatura Moderna é uma Escrita Ruim Vox Day descreve o estilo de Cormac McCarthy, Annie Proulx e outros como:

“Só poesia ruim formatada para explorar os padrões lenientes da prosa moderna. A obscuridade desta, que tem um toque infeliz de Dr. Seuss, é feita para que os leitores se vejam compelidos a pensar que a mente do autor opera em um plano superior ao seu.”

Tanto Loftis quanto Vox Day lamentam que à escrita da esquerda falte habilidade. Será que aos autores falta talento? Não, na verdade essa incoerência é intencional.

O pós-modernismo adora quebrar as regras. Vem das artes visuais abstratas que desafiaram o espectador a encontrar a beleza sozinho. Uma grande tela vermelha. Um ponto negro em uma tela limpa. O artista não estava criando beleza ou se expressando. O artista punha a responsabilidade de entender a arte nas costas de quem a contemplava.

“O que você vê?” Esta é a piada recorrente entre os colecionadores de arte que percorrem os museus modernos olhando para pontos e manchas de tinta, rótulos de latas e pedestais vazios.

A ansiedade da influência não é mais sofrida pelo artista que derrama sua alma em seu trabalho em uma tentativa de infundir-lhe significado e relevância de uma maneira original. Em vez disso, a ansiedade da influência é transferida ao espectador que deve “entender o ininteligível”, encontrar sentido no absurdo.

Que os céus o ajudem se você não entender que as manchas de tinta são um desafio radical ao modernismo e à arte contemporânea. A maior das caretas de desprezo lhe será dirigida se você disser que não foi “comovido” pela tela preta que lhe mostra tudo e nada. Porque tudo é nada e nada é tudo. Como você pode não entender isso, seu imbecil?

Vem dessa elite artística autorreferente a distinção entre arte literária, oposta à arte para o mercado de massas. A arte literária é para intelectuais, enquanto a arte de massas é para plebeus. A arte literária é mais do que histórias, é poesia. Ela é um comentário do mundo em si mesma. Quebra as regras da narrativa e da estrutura como uma forma de rebelião? Você não entende?

Em outras palavras, é um amontoado de palavras e frases, vagamente formando uma ideia ou personagem, e se você não entende, ou não finge que entende, você não pode ser parte do clube.

“O seu estilo não é feito para ser lido palavra a palavra para ser entendido.” Diz Vox Day em seu vídeo “O Mal Incoerente.”

De maneira independente, tanto Loftis quanto Vox Day concluem que os problemas com a literatura de esquerda são dois:

  1. Falta-lhe entendimento da técnica narrativa necessária para contar uma boa história (Loftis), ou resite a ela (Vox Day)
  2. As histórias são limitadas por sua moralização (Loftis) ou são ativamente desencorajadoras (Vox Day).

Apesar de suas observações parecidas sobre os problemas da falta de habilidade e de bom senso na literatura de esquerda, Vox Day e Loftis chegaram a duas conclusões bem diferentes sobre como a direita deveria responder.

Loftis desafia escritores e editores de direita a escrever histórias mais descritivas, mais representativas da experiência humana, não censurando as partes desagradáveis.

“Intuitivamente entendemos aquilo que as histórias do mundo-como-é nos oferecem. Queremos histórias reais. Porém, os editores e produtores empurram histórias prescritivas, pensando que isso é o que as pessoas querem, ou que seja seu dever moral dar ao público a sua interpretação de como as coisas deveriam ser.”

O motivo? Por que a vida não é arrumadinha e fácil de organizar do jeito que as histórias encorajadoras sugerem. Se nos mostram o mundo somente através dessas lentes rosadas, estaremos despreparados para enfrentar a realidade de nossas vidas, que não se parecem nada com uma parábola encorajadora.³

Vox Day não vê problema nas histórias encorajadoras da direita. Na verdade ele argumenta que é o nosso dever usar a literatura para encorajar e apresentar os valores pelos quais lutamos, como um antídoto para as narrativas desencorajadoras da esquerda.

Vox Day pergunta aos que seguem seus vídeos, “Qual o propósito dos contos de fadas?”

O propósito dos contos de fadas (ou da literatura) não é serem descritivos, como Loftis sugere. Não é nos mostrar o mundo (real ou imaginário). Referindo-se à defesa dos contos de fadas feita por C. S. Lewis, Vox Day nos lembra que o propósito dos contos de fadas é nos ensinar lições sobre o mundo que possam ser aplicadas em nossas vidas.

“O motivo pelo qual os contos de fadas existem não é contar às crianças que dragões existem. As crianças sabem que dragões existem. É dizer às crianças que dragões podem ser mortos. É encorajar.”⁴ — Vox Day.

A literatura pós-moderna, em contraste, está aí para desencorajar. As narrativas pós-modernas nos dizem duas coisas através do estilo e do conteúdo de seu texto:

  1. Nada importa.
  2. Siga seu coração.

“Ambas são mensagens fundamentalmente malignas” — diz-nos Vox Day.

As narrativas de esquerda “desanimam, desqualificam, isolam e desencorajam” o leitor. As histórias a que ele dá valor, e eu imagino que as histórias que ele quer mais ler, são as que fazem o oposto. Elas servem a um propósito de animar, motivar, incluir e encorajar.

Se Escrevemos para Mostrar o Mundo como Deveria Ser, Por que Lemos?

Como leitor, eu concordo com Leslie Loftis. Estou um tanto cansado de histórias desmoralizantes que tentam me dizer o que devo pensar e como me comportar, venham da direita ou da esquerda. Além disso, eu não quero limitar minha leitura a histórias “boas” que têm os conceitos “certos” e isolar-me de histórias “malignas” ou que tenham “ideias más”. Quero ler livros que me exponham a coisas que eu posso encontrar na minha vida quotidiana, para o bem ou para o mal. Se há ideias “boas” ou “ruins” nelas, quero chegar às minhas próprias conclusões, muito obrigado.

Tampouco quero me limitar a histórias objetivas e descritivas. De fato eu quero distorção. Quero opiniões. Quero sentimentos. Mas muito. Quero verdadeira diversidade de ideias e de perspectivas. Quero ser desafiado e estimulado. Quanto mais, melhor. Não tenho que concordar, quero é ver o que você vê, sentir o que você sente, saber o que você sabe.

Um livro bom me extrai de meu mundo e me insere no seu mundo. Enquanto estou ali, suspendo minha descrença e então fico imerso no livro. As tribulações do protagonistas se tornam as minhas enquanto leitor. Eu vivo os desafios, sucessos e aventuras do protagonista enquanto leio. A literatura e a arte não deviam nos dizer o que pensar. Ela não mapeia a vida como um manual de instruções. A boa literatura e a arte devem apenas fazer-nos pensar. Fazer-nos questionar, duvidar e perguntar por quê.

O problema não é que a literatura de hoje seja prescritiva, é que ela está contando a mesma história muitas vezes, e sempre com a mesma lição. É chato. Não tem originalidade. É tedioso. Então, se ela chega a conclusões erradas, me ofendo que o faça tão mal!⁵

A qualidade da escrita tem sido depreciada à medida que o próprio autor se tornou uma estrela. O status pessoal do escritor, minoria, vítima, ou qualquer status necessário para torná-lo um autor/celebridade, vem antes da habilidade, do estilo, do tema e da arte da escrita.

Para mostrar-nos quão ruim a escrita ficou, Vox Day desafia seus leitores com um jogo. Ele tirou uma passagem do livro que ganhou o National Book Awar de 1985 e dividiu a passagem em quinze sequências baseadas na pontuação e as embaralhou duas vezes. Então ele pediu aos leitores que adivinhassem qual parágrafo aleatório era o original. Ele descobriu que os leitores escolhiam qualquer parágrafo porque todos pareciam sem sentido.6

Vox Day cita Robert Hass, da New York Times Review of Books, escrevendo a respeito de “A Travessia”, de Cormac McCarthy:

“Espera-se que o leitor seja levado pelo fluxo da linguagem… É uma questão de escrita direta, uma acumulação estonteante de orações compostas, aguçadas com vírgulas e com uma repetição sedutora de palavras… Uma vez que o estilo esteja estabelecido, firme, levemente hipnótico, a clareza e a sinuosidade das frases… chega à magia.”

O que Hass descreve como uma “magia levemente hipnótica” eu experimentei como um ruído prazeroso, mas cada um com o seu.

A literatura pós-moderna “não é nem mesmo feita para ser lida, apenas para ser percorrida através das impressões superficiais causadas pelas palavras.”

Como Loftis e Vox Day, estou faminto por literatura bem escrita, provocante, evocativa e inspiradora, mas sem a salada de palavras sem sentido. Quero ler histórias que tenham sentido e relevância. Quero ler autores com carisma, perspectiva e entendimento. Quer o façam através de um sentimento, um personagem, um lugar no tempo, um ambiente, um conflito ou qualquer outra ferramenta criativa, eu não me importo — enquanto me faça pensar. Não me importa nem mesmo se a mensagem é estimulante (ou não). Quero crer que não sou tão suscetível a prescrições dos outros que abandonarei meu pensamento e adotarei rapidamente suas ideias só porque li um livro controverso, hedonista e auto-indulgente.

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  1. Entre as muitas questões relevantes levantadas por este artigo, que certamente causarão celeuma entre os autores brasileiros, está esta desavergonhada classificação dos autores entre os de “esquerda” e os de “direita”. Aqui em nosso país a ideia de misturar política e arte soa sempre ofensiva e eu mesmo já colhi comentários bastante fortes em meu blog por fazê-lo.
  2. Parece-me aqui que Leslie Loftis está atacando a reelaboração de arquétipos para satisfazer a causas identitárias, como, por exemplo, o “Homem de Ferro” se tornar uma “mulher negra” ou o arquétipo do herói ser invertido para um papel feminino, sem considerar os limites disso. Não sei se concordo totalmente com o que Loftis diz.
  3. Nesse ponto eu creio que Pedro Nunes dá uma risada.
  4. Essa citação do Vox Day foi, simplesmente, a coisa mais bonita a respeito de literatura que eu li esse ano.
  5. Acredito que o autor quis dizer que uma boa e bem escrita história, se defende uma ideia ruim ou chega a conclusões equivocadas, pelo menos é uma boa história.
  6. Que tal fazermos esse jogo com os nossos livros?

 

 

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